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Transistor kills the radio star?

1.0 Introdução

até que ponto o multitasking online é diferente do convencional?

A partir do momento em que será cada vez mais raro - pressupõe-se - assistirmos a uma escuta absolutamente passiva, como a que se verifica ainda hoje pela transmissão convencional, substituida por graus/níveis diferentes (e graduais) de intervenção por parte do utilizador (compelido a tal pelo novo sistema radiofónico - participe, vote, escolha, comente, etc), até que ponto nomeadamente quando se fala em rádio de palavra será possivel o multitasking? ou seja, até que ponto o consumo audio não será de tal maneira absorvente (primário) que não nos permitirá fazer outras coisas em simultâneo, com tudo o que isso possa significar para o consumo do meio (melhor consumo, mais dedicado, mas menor consumo, em termos quantitativos - uma coisa compensará a outra?)

As limitaçõs técnicas não podem condicionar os julgamentos

(eis um exemplo de como se podem chegar a conclusões erradas partindo de permissas erradas, porque limitadas ao tempo em que vivemos; é fundamental não deixar que, por exemplo, as limitações/caracteristicas tecnicas enviesem as reflexões, seja tambem por falta - excesso? - de ambição; o autor subscreveria isto, hoje?)

«What do we mean by 'radio'? One could argue that the attribute which has made radio so enduring is its portability, but the exigencies of the new technology are such that the only way one can access online material is to use a computer connected to the internet via a telephone, digital or corporate line. This presents some key problems in the reception of radio or audio content. Home computers are linked to the Internet via a nodem using conventional copper telephone wires, which by their nature can carry only a limited amount of data at any one time. Therefore if one assumes that listening is secondary to the user's purpose in being online, she or he is already using much of the available bandwidth to download webpages, images or e-mails. And as the latter are downloaded the audio connection may pause, stutter or stop completely» (Berry, 2006: 284) 

A riqueza do debate

«these new forms of transmission offer both opportunities and threats to the radio broadcaster but also provide some challenging theoretical debates for the radio academic.» (Berry, 2006: 284)

O fim dos ouvintes; utilizadores...

«From Inside Radio:

Bonneville’s new media director James Webb says radio needs to stop thinking of its cume as “listeners” and consider them to be “users.” He says “Listeners are engaged only when the radio is on. Radio users connect with you in other ways.”

Yes, yes, yes.

And consider: If your "audience" is "users," then you are by definition members of the new media community, not the "radio industry" per se.

Your competition - and your aspirations and opportunities - have just opened wide.

How does that change what you do, when you see your "listeners" as "users"?

Think about it.»

Sobre o assunto:

A cronica de James Webb The End of “Listeners”: «Listeners are engaged only when the radio is on. Radio users connect with you in other ways, strengthening your brand and encouraging loyalty with each touch. They access your content whenever they want, however they want.

Many of our listeners - ahem! - users, return to our sites every day. Pictures, video, and more get posted on the web to supplement the on-air message. When the show is over, users go online and discuss it or pass it on. News junkies get timely text alerts, and hundreds of captive radio users stream our music station in their offices. The interesting thing about this is that new media, used effectively, propels users to listen to the radio more, not less.

Research has show again and again that web users are not particularly loyal. However, that changes when users are also engaged in broadcast media, particularly when there is additional, compelling content available there»


Consumidor (ou utilizador) em vez de ouvinte

Ouvinte é aquele que ouve (!); a partir do momento em que - mesmo num espaço que tradicionalmente estava dedicado ou partia da rádio - ele não apenas ouve mas faz outras coisas (vê, lê), fará sentido chamar-lhe ouvinte? Mais, a partir do momento em que ele até pode estar na página de uma rádio sem ouvir (a emissão), que sentido fará chamar ouvinte?

Propõe-se, em alternativa, duas novas designações (que, como se verá, não são sinónimas), além de ouvinte (quando estivermos a falar da emissão audio conhecida hoje como rádio):

- utilizador (todo aquele que utiliza a internet)

- consumidor (aquele que procura conteúdos quer sejam audio, video, texto, etc, sobretudo associado ao consumo activo de audio)

 

Os telemóveis são mais democráticos do que a Internet

«Although a 2000 study by Eurescom [Rich Ling, The Mobile Connection (San Francisco: Elsevier, 2004): 16-17].showed some educational and income-based differences in access to and use of the mobile telephone, on the whole, Ling and other observers conclude that the “digital divide” issues associated with the personal computer and the Internet do not appear to apply to the world of mobile telephony. A mobile phone requires the user to dial a number to put a call through—no extraordinary feat for most people. Beyond that basic function,multimedia messages, Internet chat, and other advanced functionalities seem to befuddle rich and poor, educated and uneducated alike.» (Lasica, 2007: 6)

Objectivos (comportamento dos jovens)

Este não é um estudo sobre os efeitos dos media - ou da rádio, em concreto - nos jovens; é um estudo sobre os efeitos da relação dos jovens com os novos media (por outras palavras, como é que eles, ligado à internet, estão a ’tratar’ a rádio); não se estudam programações radiofónicas, mas tenta-se antecipar o que é um conjunto de novos comportamentos poderão fazer a essas programações

Os jovens e a rádio sempre mantiveram uma relação muito forte; essa relação parece estar a perder-se (de acordo com varios indicadores, nomeadamente quantitativos).

Numa linha de usos e gratificações, tentar-se-á perceber porque é que ou já não ouvem ou começam a deixar de ouvir (e com que implicações ao nivel do consumo de outros meios, sobretudo de informação musical), da mesma forma que tentar-se-á perceber quais são os substitutos da rádio, o que é que estão a usar de novo, nomeadamente, para se relacionarem com a música (e que impacto ao nível daquilo que são novos meios e sobretudo de um novo consumo activo)

Limitações na pesquisa

«Research on the effects of the Internet and other technologies is limited by the relative infancy of the technologies themselves» (Tarpley, 2001: 555)

«As novas tecnologias são apenas ferramentas»

«New techologies, like old ones, are simply tools. The extend to which they improve or hinder the cognitive, behavioral , social and physical aspects of children's lives is ultimately a factor of the way in which they are used» (Tarpley, 2001: 555)

Os computadores agravam as desigualdades

«(...) computers maintain and exaggerate gender, racial and social class inequalities (Sutton, 1991), In this sense, the Internet may play a role in widening rather than narrowing the social distance between traditional "haves" and "havenots" (Tarpley, 2001: 554)

(Questões) Sobre a interactividade

Se, como parece pacífico, a rádio foi dos meios clássicos aquele que melhor se adaptou (o que mais se aproximou) à 'utopia' da interactividade, o que mais usou os ouvintes (mais beneficios tirou), estará agora em vantagem numa nova utilização? [até que ponto as novas tecnologias  e a internet em particular não igualizam tudo e põe tudo em plano de igualdade, fazendo esquecer 'privilegios' anteriores?] Terá condições para ser mais interactiva do que outros meios? Porque é que não usou mais, antes? Fundamentalmente porque - além dos receios de perda de controlo - a tecnologia não permitiu esse desenvolvimento; e portanto não seria tanto uma questão de vontade, de querer. Por um lado nem os ouvintes, mesmo desejando mais (desde pelo menos Brecht), conseguiriam imaginar como é que poderiam consegui-lo; Por outro, a tecnologia não fomentava, potenciava ou permitia esse desenvolvimento

O impacto da Internet nos jovens

«Research in this area, however, is still in its infancy, and so little can be said with great certainty» (PAIK, 2001: 19) 

Entender a rádio de várias formas ou clarificar do que estamos a falar?

«According to the respondents in the study, AM/FM radio listening comprised only 62 percent of the hours they spent listening to the radio in the week prior to being surveyed. The total share of listening to AM and FM radio increases to 70 percent when listening to AM/FM streaming is included. Online streaming represents 16 percent of all reported time spent with radio, split evenly between AM/FM streaming and Internet-only radio. Satellite radio and the music channels offered through cable and satellite TV systems each account for an 11 percent piece of the pie. Among this sample of online consumers, listening to podcasts represent only 1 percent of total time spent with radio.Hanson added, "What this study highlights is that while Arbitron data may show that AM/FM listening is declining slightly each year, the bigger picture is this: Listening to radio in all of its forms is almost certainly growing significantly."» fonte FMQB, Online Consumers Flock To New Forms Of Radio, 11/04/08

[A questão aparentemente metodológica e apenas académica (escolástica?) sobre o que é a rádio - e a necessidade de nos entendermos sobre o que é ou não rádio apresenta-se decisiva na medida em que o que se decidir que é rádio determinará o entendimento sobre tudo o resto]

Utilizadores digitais gastam o mesmo tempo com a rádio?

«AM/FM Radio Remains Important With The Rise of New Digital Platforms (slide 62): (...) Many may overestimate the impact of digital platforms on AM/FM listening. Digital platform users spend as much time (not less) with over-the-air radio compared with the average.»

O que será a web 3.0

O consumo mediático nos próximos anos, como se vê pelos anteriores, vai depender muito de como evoluir a internet; será mais social do que agora, permitindo mais comunicação e partilha; será mais inteligente, reconhecendo conteúdos? será sobretudo híbrida? As respostas condicionarão a forma como o consumo mediático - baseado na net - evoluirá.

«A Web 3.0 pretende ser a organização e o uso de maneira mais inteligente de todo o conhecimento já disponível na Internet. Esta inovação está focada mais nas estruturas dos sites e menos no usuário. Pesquisa-se a convergência de várias tecnologias que já existem e que serão usadas ao mesmo tempo, num grande salto de sinergia (...). A Web 3.0 organizará e agrupará essas páginas, por temas, assuntos e interesses previamente expressos pelo internauta.. Por exemplo: todos os filmes policiais, que tenham cenas de perseguição de carros, produzidos nos últimos cinco anos etc.»

«A primeira, Web 1.0, foi a implantação e popularização da rede em si; a Web 2.0 é a que o mundo vive hoje, em que os mecanismos de busca como Google e os sites de colaboração do internauta, como Wikipedia e YouTube, dão as cartas. A Web 3.0 seria a organização e o uso de maneira mais inteligente de todo o conhecimento já disponível na Internet.
De que maneira? Daniel Gruhl, um dos diretores do Almaden IBM Research Center, exemplifica. Até agora, disse ele à Folha, a rede é como uma lista telefônica com bilhões de páginas. Um mecanismo de busca como o Google permite que o usuário pesquise o conteúdo de cada página --todos os Silva, para ficar na metáfora da lista-- e mesmo utilize a "busca avançada" para restringir um pouco mais os resultados --todos os Silva de São Paulo.
"A Web 3.0 organiza e agrupa essas páginas, por temas, assuntos e interesses previamente expressos pelo internauta", afirma Gruhl --todos os Silva que torcem para o Corinthians, votaram no PSDB e são alérgicos a frutos-do-mar, digamos. Embora a tecnologia ainda esteja na fase de pesquisa, suas possibilidades comerciais são infinitas. E as empresas não estão cegas para isso.
»

O futuro é imprevível - e o presente demonstra-o

Quando o iPod surgiu e rapidamente se transformou num gigantesco sucesso, quem imaginaria que poderia ter este desenvolvimento? Ou seja, a tecnologia digital demonstra uma capacidade de permanente renovação e de surpresa.

Se por um lado devemos ter cautelas quanto às previsões e às consequências que tecnologias futuras possam ter, por outro também não podemos perder de vista que - como hipotese - qualquer previsão corre o risco de ser conservadora e limitada quanto aos verdadeiros impactos que poderão surgir.  O iPod prova-o.

A experiência AM/FM pode passar sem alterações para a net?

Há quem defenda que a experiência de ouvir AM/FM pode ser distribuída perfeitamente e sem alterações através da net (ou, por outras palavras, que ouvir hertzianamente ou atraves da net é igual);

Para justificar a ausência de trabalho quantitativo de campo

Muito se discute sobre o impacto da internet (como novo meio) nos meios clássicos - acabam? alteram? não modificam na essência?

Neste trabalho procuramos avaliar esse impacto no caso concreto da rádio, não tanto pelo lado teórico ou pela arquietectura das especulações, mas percebendo como é que determinados utilizadores - os jovens - se relacionam com o novo e com o velho meio (a rádio musical).

Poder-se-ia ter optado por realizado um determinado trabalho de campo estatístico, ainda que qualitativo, com essa amostra de utilizadores, mas essa hipotese apresentou desde o início duas limitações:

- ocuparia espaço e tempo que impediriam certamente outras análises;

- mais importante, a realidade portuguesa, tanto quanto o demonstram os dados disponíveis, não é (ainda?) reveladora das novas tendências, por conservadora. O impacto do novo meio ainda é residual, o comportamento - à luz dos dados disponiveis - é o mesmo há 20 anos (como se verá em capitulo proprio)

Por outro lado esses dados, esse trabalho de campo tem sido feito quer pela universidade (Gustavo Cardoso) quer pela industria, sobretudo pelo lado do marketing, e se nenhum dos trabalhos é directamente vocacionado para os impactos na rádio, todos ou quase todos falam nesse aspecto e na relação dos jovens com a música e por exemplo com os leitores digitais de áudio (mp3). No caso dos trabalhos liderados por Gustavo Cardoso, no âmbito do CIES/ISCTE, apresentam a amostras que seriam imbatíveis num trabalho isolado.

(Questões a responder) A rádio conseguirá reinventar-se (a partir da ideia de rádio) ou evoluirá para outra coisa?

«Could smaller, softer voices nonetheless make themselves heard in a media landscape dominated by large companies? Could the next revolution take place on the radio itself as it did when the industry last grew anxious about its survival, back in the 1950s? Technology night seem to be radio's enemy, but radio fought back with its own innovations. [HD]» (Fisher, 2007: 307)

O que se passou com a rádio aconteceu como movimento social

«Will the public turn against corporate radio? Can a popular rebelion restore creativity and fun, pushing radio back to its local roots? Or will we simply adjust to the loss? What's happened in radio in the past decade also happened to bookstores, drugstores, supermarkets, and hardware stores. The mom-and-pop stores that once lined downtown streets have given way to Borders, Walgreens, Wal-Mart, and Home Depot. American consumers have voted with our feet and our dollars: as much as we may grumble about mega-companies or wax nostalgic for the lost community of the old ways, we cast our votes for the big boys.» (Fisher, 2007: 294-295)

OU SEJA, O PROBLEMA, COM CARACTERISTICAS PROPRIAS À REALIDADE DA RÁDIO, NÃO É ESPECÍFICO DA RÁDIO

a grande questão que se deve pôr é outra: perante isto, que saída para a rádio? o que resta, o que pode fazer a rádio perante determinada constatação negativa?

«Rather than rebelling in protest, many Americans find music elsewhere: Internet radio, satellite radio, downloading, fIle sharing» (295)