Blogia
Transistor kills the radio star?

«Os jornais não têm futuro? Ou é o jornalismo que não tem futuro?"

«(...) O que me inquieta é saber como sobreviverá o jornalismo". (...) "Acreditei sempre que os jornais impressos sobreviveriam", concretizou o editor sueco, "mas começo a ter dúvidas". "O nosso problema não é saber se vamos conseguir manter-nos tal como somos hoje, porque isso não sucederá", concretizou George Brock. "O que me preocupa é saber se o jornalismo escrito consegue sobreviver como jornalismo que investiga, aprofunda e enquadra".

«"Já não somos os guardiães do templo, os gatekeepers, pois os leitores entraram no círculo do poder", reconheceria Lisbeth Knudsen, director do dinamarquês Berlingske Tidende. "E isso está a acontecer porque é a tecnologia que está a determinar os caminhos da inovação nas nossas empresas, não é o jornalismo que, ao reinventar-se, consegue determinar qual a melhor forma de inovar".
Isto é tão mais importante quanto a forma como os cidadãos "entraram no círculo do poder" apresenta as mais diferentes facetas. Por um lado, ao terem ganho o direito de livremente afixarem na rede aquilo que pensam, intrometeram-se num espaço de comunicação antes reservado aos jornalistas. Por outro lado, ao serem chamados pelos próprios jornalistas a sentarem-se na primeira fila, nomeadamente por via dos comentários às notícias, ajudaram a criar um espaço que começou por ser de debate mas que também se foi transformando em espaço de informação.

«Mas se até aqui não deixa de existir um papel para os jornalistas, que têm sempre de seleccionar e editar, aquilo que temem observadores como Andrew Nachison, do iFOCOS, é que gradualmente se perca entre os cidadãos a noção de que necessitam de jornalistas e de bom jornalismo para aceder à informação de que necessitam. Por um lado, motores de busca como o Google facilitam imenso o acesso às fontes originais, ou reempacotam a informação com base naquilo que os próprios órgãos de informação produzem - roubando, de caminho, cerca de metade do mercado publicitário que migrou da imprensa escrita para a Internet, o que cria dificuldades adicionais às empresas jornalísticas. Mas, por outro lado, o que mais o preocupa são "os novos centros de produção de informação que podem tornar redundantes os jornais e dispensável o jornalismo".
Exemplos? Os sites oficiais das mais diversas instituições que tendem a ser desenhados de forma a colocar em destaque "notícias", mas que também disponibilizam os documentos originais. Alguns blogues mais sofisticados e influentes, como os que nos Estados Unidos virtualmente se profissionalizaram. E, por fim, todos os que produzem informação e opinião de qualidade, como sucede com muitos think-thanks. "Tenho a sensação de que não sabemos como vão as novas gerações ter acesso à informação, se vão continuar a confiar na 'marca de qualidade e independência' que lhes é assegurada por alguns títulos de referência, ou se utilizarão cada vez mais as redes da Web 2.0 e os sites das fontes primárias", precisou Nachison»

fonte: FERNANDES, José Manuel, «Os jornais não têm futuro? Ou é o jornalismo que não tem futuro?», Público,12 /06/08

0 comentarios